Brasil reuniu quase 5 milhões de acidentes de trabalho em 2013

Ocorreram 4,9 milhões de acidentes de trabalho no Brasil no ano de 2013. A projeção é da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde, em parceria com o IBGE. Para discutir o que esse e outros números revelam sobre as condições de trabalho em nosso país, o Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcellos, da ENSP, recebeu, na quarta-feira, 4 de novembro, Célia Landmann Szwarcwald, pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz) e Heleno Rodrigues Corrêa Filho, da Universidade de Brasila (UNB). O Centro de Estudos foi coordenado por Francisco Pedra, pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP).

Célia Landmann destacou alguns dos dados da pesquisa, que vistou 81254 domicílios e fez 60202 entrevistas individuais.

"Foi a primeira vez em que se fez perguntas sobre acidentes de trabalho. Primeiramente, sobre acidentes de trânsito. Do total de pesquisados, 3,1 % relataram ter sofrido algum acidente de trânsito. Desses, 1,3% estavam indo ou voltando de seus empregos. Condutores de moto e passageiros representam quase a metade desses números. Quase 50% dos acidentados tiveram suas atividades interrompidas, sequelas ou incapacitações", disse Célia.

Desconsiderando os acidentes de trânsito, 2,8% dos entrevistados relataram ter sofrido acidentes de trabalho.

"A proporção é maior entre homens e entre os mais jovens e vai decrescendo com a idade. A partir dos dados, chega-se a uma projeção de quase 5 milhões de acidentes de trabalho ocorridos em 2013 e esse número ainda pode estar subestimado, por causa das sub-notificações", lembrou a pesquisadora do Icict.

Heleno Rodrigues, da UNB, destacou a importância da pesquisa, que para ele apresenta um grau de aprofundamento inédito.  
 
"Antigamente, quando queríamos pesquisar as condições de trabalho, não tínhamos dados nacionais. Portanto, seria muito difícil concentrar todos esses números pegando as pesquisas dos estados e municípios. Sem falar do aprofundamento gerado pelas pesquisas individuais". 

Para exemplificar as dificuldades experimentadas pelos pesquisadores da área no passado, Rodrigues lembrou de uma ocasião em que compararam dados dos trabalhadores da indústria do amianto do Brasil com os da África do Sul.

"Como na África os riscos a que os trabalhadores estavam submetidos eram muito maiores, a comparação serviu para que se propagasse,  no Brasil, o discurso de que nossa indústria do amianto não era nociva a seus trabalhadores. Agora, com os dados da PNS, teremos condição de fazer comparações com nossos próprios dados. Não dá mais para virem com o um velho discurso de que nossos trabalhadores são super-saudáveis", ressaltou o pesquisador.

Ao destacar as  possibilidades que os dados da PNS trarão para quem pesquisa saúde do trabalhador, Rodrigues listou uma série de riscos que devem ser evitados por quem manejar com os números.

"Quando falamos de acidentes de trabalho e saúde do trabalhador, nos referimos aos determinantes sociais, mas precisamos mudar o ângulo do que se chama de estilo de vida para condições de trabalho. Não se deve tratar como estilo de vida a determinação social pela ocupação. Tudo que você não pode ou não quer relacionar às condições de trabalho você joga para estilo de vida.  É preciso, também, diferenciar ramo de ocupação. Em vez de procurar no professor, na merendeira, no porteiro, devemos buscar na característica econômica da atividade, que é um dado coletivo e populacional que interessa mais", alertou o pesquisador.

Também no sentido de deslocar a abordagem que foca nas ações individuais para um olhar direcionado às determinações sociais da saúde, o pesquisador sugeriu que a propalada expressão ato inseguro deve ser substituída por condições inseguras.

Feitas as ressalvas, Heleno Rodrigues acredita que bons frutos virão dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde.

"É hora de colocarmos a mão na massa. Sou otimista com relação aos jovens pesquisadores que queira se debruçar sobre esses dados. Desejo, para o futuro, não só boas teses de mestrado ou doutorado mas também a elaboração de métodos de análise".

Fonte: Informe ENSP, 13/11/2015