Sindicalistas turcos e brasileiros trocam experiências em encontro no Cesteh

Muito já se falou sobre o que se perde num processo de tradução; porém, de natureza certamente mais intangível, há sempre também algo novo que emerge do encontro entre idiomas, linguagens e vivências. Foi essa troca rara, tecida na lentidão da tradução simultânea, que marcou o encontro entre trabalhadores turcos e brasileiros, recebidos para uma roda de conversa no Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP), em maio. Tendo como debatedores Fadel Vasconcelos e Augusto Pina, pesquisadores da Escola, e Nilton Freitas, representante do Sindicato dos Químicos do ABC, o encontro seguiu a dinâmica das rodas de conversa do Cesteh, com ampla participação de todos os presentes no debate.

A atual coordenadora do Cesteh, Kátia Reis, deu boas-vindas aos trabalhadores e pesquisadores falando da importância dessa aproximação entre a pesquisa e os sindicatos.

- O conhecimento sobre saúde do trabalhador não pode ficar na mão apenas dos pesquisadores. Precisamos de um modelo operário de conhecimento. A saúde nos pertence. Não deve ser delegada. E temos que trazer de volta os referenciais que nos dão identidade: a construção coletiva, a camaradagem. Não adianta conhecimento sem transformação. Precisamos trazer para dentro do Cesteh um conselho de trabalhadores.

Em seguida, o professor Fadel Vasconcelos fez um breve histórico sobre o campo da Saúde do Trabalhador no Brasil.

- No nosso entendimento, a saúde do trabalhador, no campo da Saúde Pública, fez uma ruptura por inspiração do modelo italiano, com duas áreas: com a Saúde Ocupacional e a Medicina do Trabalho, que são o modelo do capital desde a Revolução Industrial. A essência dessa ruptura é porque, nessas áreas, que servem ao capital, o trabalhador é visto como mero objeto. Para a gente, o trabalhador tem que ser sujeito de suas ações. Não é como gostaríamos, ainda, mas essa é a nossa ideologia. O campo da Saúde do Trabalhador foi trazido para a nossa Carta Constitucional, mas a predominância da Medicina do Trabalho e da Saúde Ocupacional faz com que não tenhamos na Saúde Pública algo que possamos chamar de Política Nacional de Saúde do Trabalhador.

José Augusto Pina frisouser a participação uma condição da Saúde do Trabalhador.

-  Os trabalhadores são portadores de conhecimento, e isso é uma condição de proteção da sua saúde. São as lutas que orientam as ações no campo da Saúde do Trabalhador. Lutar é saúde, pressupondo a luta coletiva. E já que os trabalhadores são os protagonistas, vamos ouvi-los, provocou.

Raimundo Suzart (camisa azul), presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, organização que tem quase 80 anos de atuação, foi o primeiro dos visitantes a falar.  Ele começou lembrando da conjuntura política que vem ameaçando direitos dos trabalhadores no Brasil. Em seguida, lembrou de um caso dos anos de 1980, em que a atuação da Fiocruz foi fundamental para o desfecho favorável aos trabalhadores.

- Era uma fábrica de produtos químicos que pertencia à família Matarazzo. A contaminação dos trabalhadores era tamanha que até hoje, graças à Fiocruz, o terreno está isolado. Mas, hoje, temos muitos outros desafios. Posso falar, por exemplo, da nanotecnologia, à qual já estamos expostos sem nenhuma informação. Por isso, precisamos nos reaproximar.

Marco Menezes, pesquisador do Cesteh e atual vice-diretor de laboratórios da ENSP falou da importância dessa reaproximação para se manter a resistência dentro das instituições públicas.

- Esse é um momento de resistência das instituições públicas, e essa resistência só poderá ser feita numa parceria com os trabalhadores organizados. Temos que buscar novas formas de parcerias nesse momento, e nos unir aos movimentos sociais,

Maria Aparecida, pesquisadora gaúcha que trabalhou com o Cesteh em uma campanha de combate à contaminação de trabalhadores dos postos de gasolina por benzeno, agradeceu a acolhida da Fiocruz e lembrou da importância de se fortalecer essas redes em que atuam trabalhadores e pesquisadores.

- É uma rede que precisa ter mais nós. Eu acho que a Fiocruz pode articular a pesquisa, e os trabalhadores, a educação e os serviços.

Entre os visitantes turcos, o primeiro a falar foi Turgut Dosova. Ele começou traçando breve painel sobre a saúde dos trabalhadores de seu país.

- Na Turquia, 18 mil trabalhadores perderam suas vidas nos últimos anos. Nós não temos, uma instituição como a Fiocruz. Em nosso país, temos apenas três hospitais ocupacionais. São hospitais públicos, mas que não têm nenhuma relação com os sindicatos.

Além de não existir uma política de saúde voltada para a saúde do trabalhador, os espaços de atuação sindical também são restritos, segundo Turgut.

- Não existe uma política nem um espaço de ação nacional; agimos no ambiente de trabalho organizando os trabalhadores, em que promovemos algumas ações para proteger a saúde deles. Esse tema da saúde do trabalhador tornou-se importante nos últimos dez anos. Antes, não tinha muita relevância nas discussões sobre capital e trabalho. Uma das razões para começar a se tornar relevante, mais recentemente, é por causa da grande mortandade e, também, da legislação europeia, disse Mustafá Kerkik.

  Ainda segundo dados trazidos pelos turcos, que pertencem a um sindicato de petroleiros, a taxa de organização dos trabalhadores por lá é baixa. Corresponde a 8% no setor deles.

De acordo com Mustafá Kerkik, há uma questão de fundo religioso da baixa sindicalização dos turcos.

- Por sermos um país muçulmano, há uma crença de que tudo vem de Deus, as coisas boas e as ruins. Isso é uma barreira para a ação sindical. A maior parte do que é debatido na Turquia não tem um recorte de classes, mas religioso.

A despeito das dificuldades linguísticas e culturais, muitos temas foram aproximando turcos e brasileiros ao longo da conversa. Um deles, a pressão violenta sofrida pelos manifestantes da Primavera Turca em 2013, serviu para que se fizesse um alerta.

- Acho que vivemos algo similar ao que vocês estão vivendo. Nos últimos anos, estamos sendo governado por um partido, uma coalizão de direita. Há um verdadeiro genocídio dos trabalhadores no país, disse Ercan Yavuz.
 
Segundo Yavuz, com a crise humanitária de 2015, a repressão aumentou.

- Essa política de “one man”, ou seja, baseada em uma pessoa, é perigosa. Se vocês não interferirem nesse golpe civil, podem sofrer os mesmos problemas que nós quanto ao autoritarismo.

Fonte: Informe ENSP, 28/06/2016