Resgatar palavras e ações: oficina discutiu formação de rede de pesquisa em Saúde do Trabalhador

Profissionais de saúde, sociólogos, poetas, estudantes e uma vontade de pensar e agir em rede. Nos dias 21 e 22 de novembro, foi realizada a Iª Oficina - Rede de Pesquisa em Saúde do Trabalhador. O objetivo do encontro foi dar o primeiro passo para a constituição dessa rede que, ao reunir pessoas de formações e áreas de atuação diversas, discuta os temas mais urgentes que dizem respeito ao mundo do trabalho. A procura por novas linguagens, a importância de se chamar os trabalhadores para participar ativamente dos processos e pesquisas da rede e a necessidade de se pensar o tema a partir das contradições entre capital e trabalho, dentro da conjuntura atual, foram destaques nas falas do encontro.

Hermano Castro, diretor da ENSP, abriu o evento lembrando o fato de que a Saúde do Trabalhador é sua área de origem como pesquisador da Saúde Coletiva e falou da importância da criação da rede como uma forma de propor resistência aos retrocessos que vêm surgindo.

- Eu, nesse momento, estou como diretor da Escola, mas espero que, em um futuro bem próximo, possa ser convidado para fazer parte da rede. Essa é uma iniciativa importante, principalmente nos dias atuais em que se veem operações na seguridade social, precarização do trabalho, flexibilização e perdas de direitos conquistados pelos trabalhadores.

Ao fazer a apresentação inicial da oficina, José Augusto Pina, pesquisador do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP), também citou as dificuldades que a atual conjuntura impõe a quem pensa e atua na área da Saúde do Trabalhador.   

- É um desafio em tempos sombrios. É uma conjuntura que nos faz retomar ou reafirmar posições no campo da Saúde do Trabalhador e da Saúde Coletiva, de modo geral. Estamos há trinta anos da Primeira Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador. Levantei alguns registros, e, em um documento daqui da Abrasco, tem um trecho que diz o seguinte: "Avaliamos que não seja possível, a partir de definições de políticas setoriais específicas e isoladas, produzir as transformações para se conseguir o gozo pleno da vida e de todos os cidadãos." Ou seja: a luta pela saúde deve estar integrada a uma transformação social, tanto mais quando falamos de saúde do trabalhador, das relações de produção capitalista.

O evento contou ainda com três apresentações. A primeira delas, "Configuração da relação capital-trabalho e organização dos trabalhadores: desafios para pesquisa", foi feita por  Maria Aparecida Bridi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet). Entre outros temas, Cida, como é conhecida entre seus pares, falou sobre o uso das tecnologias como parte das estratégias de exploração dos trabalhadores e aumento da lucratividade das empresas.

- Hoje, as empresas de tecnologia são as que recebem maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Só que essas atividades são concentradas nos países sede. Por trás dos discursos de modernidade, o que se observa é uma intensa fragmentação da base com hierarquização do poder decisório, com as tecnologias permitindo uma agenda estratégica única por parte das empresas.

Mara Takahashi, do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) de Piracicaba falou sobre a "Experiência de intervenção em Saúde do Trabalhador: desafios para produção de conhecimentos e articulação entre pesquisa, trabalhadores e serviços". Entre os destaques de sua apresentação, ela também falou da intensificação da produtividade. 

- As empresas, hoje, querem a mesma lucratividade no setor produtivo que aquela que obtêm no mercado financeiro, só que são atividades de natureza completamente diferente. Como consequência, temos observado o aumento de contradições e conflitos, como aquilo que chamamos de gestão violenta, ameaças tácitas de demissão, trabalho por script e outras distorções que são danosas à saúde do trabalhador.

Refletir sobre as condições de que o movimento sindical dispõe, hoje, para se opor a esse cenário, foi uma das propostas da apresentação "Ciência e experiência operária: questões para pesquisa em trabalho-saúde", feita por Eduardo Stotz, pesquisador do Departamento de Endemias da ENSP. 

- Existe algo que é chamado de "Gestão por estresse" e é encarado como um método de gestão. Não há uma crítica do termo. Fazendo uma perspectiva histórica, nós observamos que, a partir dos anos 1990, grande parte do movimento sindical aderiu ao "todos ganham, ninguém perde". Só que, no caso da exploração capitalista, os trabalhadores ganham o emprego, e as empresas o lucro. 

Um ponto comum observado por todos participantes da oficina foi a necessidade de abrir canais de diálogo com os trabalhadores e, já no próximo semestre, estabelecer contato com o movimento sindical, tendo como pressuposto a construção compartilhada de conhecimento, como assinala o seguinte trecho do documento produzido ao fim dos dois dias de encontro:

"Assinalamos a natureza processual da rede de pesquisa em ST, bem como seu pressuposto: a construção do conhecimento com os trabalhadores, ou seja, a valorização das experiências dos trabalhadores e organizações sindicais nas lutas e enfrentamento de problemas reais para a produção de conhecimento e intervenção em saúde, no sentido da articulação entre pesquisa, trabalhadores e serviços. Trata-se de pesquisa engajada, na interface das relações entre as esferas da ciência/técnica e da política."  

As ideias, documentos, textos e vídeos gerados durante a Iª Oficina - Rede de Pesquisa em  Saúde do Trabalhador estão sendo trabalhados e disponibilizados virtualmente pelo grupo. A intenção, agora, é trazer os trabalhadores para os próximos encontros, que devem se dar ao longo do primeiro semestre de 2017. Ainda dentro da proposta de integrar outras linguagens e a arte nas discussões, mereceu destaque na 1ª Oficina os poemas lidos por Lucas Bronzatto. Mestre em Saúde Pública pela ENSP, entre outros textos que ajudaram a amenizar as fervilhantes porém densas discussões da oficina está o poema "Pedras Atiradas". Síntese do muito que se falou ao longo dos dois dias de encontro, ele expressa a necessidade de não se abandonar ou mesmo resgatar palavras que, talvez por seu poder de transformação e força, são encorajadas, por parte dos que se interessem em manter o mundo tal qual ele é, a serem deixadas de lado.  

PEDRAS ATIRADAS

Capitaliza mais se não usar a palavra  
capitalismo
Impressão boa não causa a palavra  
opressão  
Explore outras palavras pra substituir
exploração
Há uma fobia da palavra
homofobia  
Achismo demais no que chamou de
machismo  
Transforme em outra a palavra
transfobia  
Cismo que não é isso onde diz
racismo  
Fico aflito de tanto ler a palavra
conflito  
Enterra essa frase que diz que aqui há
guerra  
Luvas de pelica são bem melhores que
lutas  
É falta de classe interpretar a partir de
classes  
Por que você não troca burguesia  
por pessoas mais favorecidas? 

Domine seu engajamento e não use a palavra
dominação  
Amoleça essas palavras duras  
Limpe a poeira do muro de berlim da sua boca
da sua caneta  
Tire essas pedras do caminho de quem lê
de quem ouve 

Não tiro  
não troco
não limpo
não amoleço  
não amenizo 

Hesitações e silêncios  
cômodos  
nutrem essas palavras
incômodas 

As pedras ficam  
quando pedra preciso for

Partirão de minha boca  
de minha caneta  
como avalanches  
se preciso for  

Onde não há metáfora  
é pra não haver confusão  
Se dói na pele do povo  
é pra doer nos ouvidos  
de novo  
e de novo
e de novo 

(Lucas Bronzatto)

Fonte: Informe ENSP, 25/12/2016